uma sonhadora obstinada
a descrição dele ao ver meus olhos cansados
Que eu sempre tive um olhar otimista para o mundo não é novidade. Esse olhar, no entanto, tem evoluído da ingenuidade para o cansaço de quem efetivamente tem tentado construir esse tal mundo para além da fala. Com ação. Com suor. Com muitas lágrimas.
Entre teorias financeiras e econômicas, existe algo que desde nova sussurra no meu ouvido: a desglobalização. O fortalecimento do comércio local, descentralizado e, por que não, manual. E a constante pergunta sobre a viabilidade desse sonho, dado que a inovação geralmente surge de grandes corporações com alto investimento. Reconheço e aplaudo a necessidade de inovação e tecnologia em diversos setores.
Para ilustrar o meu raciocínio: em uma exposição sobre consumo que visitei no MAK, em Viena, li sobre um dilema interessante. Ebru Kurbak apresentou duas situações: a tapeçaria turca, conhecida mundialmente, já foi considerada artigo de luxo — acessível apenas a quem tinha maior poder aquisitivo. Ainda assim, movimentava o comércio local, sustentava artesãos e celebrava a cultura turca.
Nas últimas décadas, tornou-se acessível comprar um tapete muito similar, quase impossível de diferenciar a olho nu, produzido na China por grandes tecelagens. A China democratizou o acesso a inúmeros produtos; o volume e a qualidade da oferta mudaram de patamar. Hoje, já não faz sentido dizer que “produto chinês não tem qualidade”. De certa forma, tudo vem da China.
Mas é isso mesmo que queremos? Ao comprar o tapete Turco, estamos comprando somente o objeto? Ou compramos a história, a cultura, a energia colocada ali para produzir essa arte?
Sempre fui a favor de consumir apenas o que o meu dinheiro pode comprar, que faça sentido com a minha realidade financeira, e que seja autêntico e carregue história e cultura. Inclusive, adoro um brechó. Minha conta no Enjoei tem 13 anos, apenas, rs.
Questionar certos movimentos nunca é simples. É com certo constrangimento que costumo questionar o rumo que a Revolução Industrial tomou desde o século XIX. Os olhares costumam pesar quando começo a falar sobre isso, raramente concordam com a minha visão, devo estar perdendo o poder de persuasão ou realmente meu raciocínio não faz sentido.
Meu ponto sempre é que tudo neste mundo parece ir ao extremo antes de se reequilibrar. E é nesse equilíbrio que moram os meus sonhos obstinados.
Dinheiro realmente movimentando investimentos em inovação e bem-estar comum. O fim do capital puramente especulativo. Dinheiro circulando, consumo moderado sendo demandado. Um consumo consciente, limpo, justo, autêntico.
Sei que não sonho sozinha.
Mas o cansaço, é sim solitário.

